Trânsito e Cidadania

25/04/2011 § Deixe um comentário

Faz um ano que comecei a fazer os meus deslocamentos pela cidade de São Paulo através de transporte público e aqueles ditos “alternativos”, no caso a bicicleta. Desde então eu posso afirmar, houve sim uma transformação em minha vida, seja na forma de pensar a cidade, como enxergar o trânsito, e por consequência os motoristas, nem tão cidadãos.

No primeiro caso a transformação se deu de uma forma já muito relatada por quem trilhou caminhos semelhantes. Passa-se a ter uma maior proximidade com a cidade e com os cidadãos. Visualiza-se as passagens, vias e calçadas como espaços comuns, espaços públicos e de todos. Por consequência encontros foram propiciados, e lugares e pessoas descobertas.

A segunda transformação, nem tão positiva, mas muito didática, foi conseguir visualizar de uma forma mais distante e abrangente a violência e a catástrofe que é o trânsito brasileiro, seja nas relações entre os motoristas, como nas suas redes de impunidade e corrupção. Neste artigo descrevo um pouco esta observação, e tento colocar uma luz no final, ou uma alternativa para amenizar problemas.

Uma das primeiras motivações em deixar o carro foi sem dúvida me distanciar de uma rede de insegurança, gastos e corrupção que já visualizava em tudo que envolvia o automóvel. Começava com um processo suspeito de tirar a habilitação, onde quem faz o que a cartilha recomenda tem mais dificuldades de passar. Depois um licenciamento cheio de amarras, burocracias e jeitinhos. Ao tirar o carro, ganhava uma conta de seguro pornográfica. Se o carro quebrasse ou batesse, o que não é raro, tinha que ouvir indicações de lugares mais baratos, que claro, eram os mesmo que alimentavam aquele seguro pornô, que eu nem mesmo desfrutava. Assim resolvi dizer um basta. Outras motivações foram econômicas (sim eu fiz uma planilha, gosto um pouco de economia, e o gasto com o carro é realmente muito alto), a perda de tempo no trânsito e o stress e a violência presentes nele. E quanto a este último, posso afirmar, foi aonde eu tive as maiores e piores descobertas.

O povo brasileiro é violento. Eu não consigo amenizar esta frase quando leio os números de mortes, ou quando vejo cenas de brigas em plena luz do dia no trânsito. Visualizei diversas delas, violentas, que eu até hoje não entendi porque começaram. Carros trazem uma noção de poder, há uma guerra de quem pode mais para dominar o espaço público, e coitado dos pedestres e ciclistas. Já visitei outros países, não afirmo que é o trânsito que gera violência, pois não vi reações proporcionais em agressividade e quantidade a que vejo aqui. Argumenta-se que a impunidade e a corrupção geram esta situação, concordo, mas não teria a capacidade de discutir profundamente isto aqui neste texto. O que quero colocar aqui é; a educação e a cidadania no trânsito podem ser base da transformação do cidadão brasileiro.

O trânsito, é um lugar público, lugar de passagem, lugar de convívio, e arrisco que é aonde a grande maioria do brasileiros está exposta. É o lugar onde convivem todas as classes sociais. É o lugar onde convivem autoridades e cidadãos. É um lugar onde são necessárias relativamente poucas leis para ser regulamentado. É o lugar onde o poder público tem a oportunidade de aplicar as mais modernas políticas públicas, e da forma mais eficaz na conscientização da população de seus direitos e deveres como cidadãos. A transformação do trânsito, trazendo a tona o conceito de cidadania para os brasileiros seria o começo de uma transformação, e com grande potencial de “contaminar” todo o seu entorno.

Imaginem então, daqui há alguns anos um carro de alguns milhares de dólares parando para um senhor ou um mendigo passar. Ou um ladrão de carros sabendo que não poderia mais se infiltrar no trânsito caótico e violento, que seria facilmente identificado. Sim, podemos.

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houve tempo

21/04/2011 § Deixe um comentário

houve tempo
para se olharem
se abraçarem
como se nenhum tempo
fosse passar

houve tempo
houve tempo
houve tempo
ouvem hoje
a voz do tempo

nao me ceda

20/04/2011 § Deixe um comentário

não me ceda
nada que te exceda
não me dê
nada que não vê

inside job

15/04/2011 § Deixe um comentário

O filme Trabalho Interno (Inside Job) vale a pena ser assistido. Para quem acompanhou os noticiários sobre a crise financeira o filme traz poucos novos elementos, porém serve como um bom fechamento do assunto. O filme faz uma retrospectiva da desregulamentação dos mercados desde a década de 80, os principais protagonistas e as principais decisões dos governantes americanos que culminaram no estouro de 2008. E também não poupa Obama, mostrando quem faz parte de seu time e como suas ações são coniventes com o mercado financeiro. A narração do Matt Damon, precisa e em tom e velocidade constantes, mantém durante todo o filme a tensão resultante da crise.

Depois de assistir o filme, tenho cada vez mais a percepção de que a raiz desta crise é o excesso de liquidez mundial. A crise diminui a liquidez, um cenário crítico para os mercados, porém somente foi possível devido aos excessos do próprio mercado com a ausência de supervisão dos governos durante décadas.

O mundo presenciou um enorme e vertiginoso aumento da riqueza durante a segunda metade do século e não sabe lidar com ele. Em uma visão utópica e ingênua, era dinheiro suficiente para erradicar a miséria e proporcionar condições de vida digna a população mundial. Mas os donos do dinheiro preferiram outro caminho, o mais fácil claro. A pior consequência desta crise foi a manutenção da liquidez mundial e das suas relações com o poder; e que infelizmente por muito tempo continuarão impregnadas no sistema. Os exemplos dos efeitos nocivos do excesso de liquidez podem ser visualizados nos campeonatos esportivos e seus astros milionários, nos mercados de entorpecentes, no poder de máfias, no abusivo mercado de arte e nos obscenos mercados de produtos de alto luxo.

Mesmo que todo o sistema comece a se regular, as consequências negativas da crise, e que ainda persistem, somente poderiam ser amenizada com a redução da liquidez mundial e consequente investimento na melhoria da qualidade de vida da população. Chances, na minha opinião remotas. Há um frase que os homens buscam o poder, a glória e o dinheiro. Antigamente podia-se ter o poder em um reinado, a glória em atos heróicos, e o dinheiro em uma boa ocupação. Hoje glória e poder são escravos do dinheiro e dificilmente estas ligações serão desfeitas.

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